a fantasia acabou

um dia você vai se dar conta de que a fantasia acabou. um dia você vai acordar e vai perceber que a realidade é dura e cruel e vai precisar fazer coisas que você não gostaria de fazer, você vai precisar sorrir pra pessoas pra quem você não gostaria de sorrir, você vai precisar ir pra lugares pra onde você não quer ir, você vai precisar engolir sapos e vários outros bichos ainda maiores, você vai precisar respirar fundo e a vida real é uma merda porque você vai ter rinite nesse dia e você não vai conseguir nem respirar direito. e a vida real é uma merda porque depois de tudo isso, depois desse monte de coisa que você preferiria morrer a ter que fazer você vai precisar fazer coisas que não são legais, mas não são imorais e muito menos poéticas; depois de tanto tempo gasto durante o dia pra fazer coisas que você não quer fazer, você vai precisar chegar em casa e fazer a janta, você vai precisar descascar alho e vai precisar lidar com o cheiro de alho na mão enquanto você pega as roupas sujas do cesto e coloca pra lavar aquele monte de roupa já meio gasta meio velha que você ainda usa porque não tem dinheiro ou vontade pra comprar novas, porque não faz sentido gastar dinheiro com isso, porque não faz sentido parecer mais bonito porque nesse dia, no dia que a fantasia tiver acabado, nesse dia você vai saber que é feio também e vai saber que não adianta você ter uma posição concorrida ou ser ouvido, não adianta nada disso porque você é irrelevante e você vai adoecer no dia que a fantasia acabar e você vai ser substituído naquele lugar onde apenas você poderia ir, outra pessoa irá e tudo ficará bem porque na vida real tudo fica bem no fim e isso não depende de você e nunca dependerá, porque no fim do dia, na vida real, o cheiro de alho não sai e os banheiros são sujos e você não é relevante e a vida é difícil e, sim, você vai precisar sorrir de novo de manhã e não, ninguém te ajuda. mas existem abraços apertados, cervejas geladas, mesas vazias esperando você sentar e contar uma história sobre um dia que você foi naquele show que você disse que iria e como foi incrível e como naquele dia o banheiro estava limpo e as cadeiras eram confortáveis e as calças jeans eram ideais e não apertavam a sua barriga inchada de tanto tomar cerveja e comer tranqueiras, você vai dar risada alto e um gole grande no copo de cerveja e pedir mais uma sorrindo porque hoje, nesse dia, hoje isso não é um sacrifício e aí você vai chegar em casa. e quando você chegar em casa você vai tirar os sapatos e tomar um banho e agradecer porque a fantasia voltou pra te lembrar que dá pra criá-la quando quiser você só precisa fechar os olhos e rir pra outras coisas, pras coisas certas, dar risada pras coisas boas e quem sabe quando a fantasia acabar de novo você vai poder ter alguém que te convença de que você é relevante e importante e que a sua vida importa pra alguém ou pra alguma coisa. é uma esperança. por via das dúvidas, sorria amanhã e não conte com ajuda. mas conte por aí que a fantasia pode ser inventada. quem sabe o que pode aparecer.

e não sobrou nenhum

a gente tem que contar pro povo o poder que o povo tem e dos que tão lá em cima não vai sobrar ninguém

fora de casa

eu fiquei pensando que durante muito tempo minha única alegria era aquele matinho que tinha do lado de fora da casa da minha mãe. eu lembro de ficar olhando muito pra baixo e depois cada vez menos pra baixo, mas sempre olhando, percebendo ele crescer e notando como as coisas crescem e lembro de pensar que as coisas mudam mesmo quando a gente não fica olhando sempre, mas eu olhava. eu lembro que olhava de manhã e a noite já tava escuro demais pra olhar e tava sempre, sempre um pouquinho diferente. eu lembro de pensar que as coisas mudam mesmo quando a gente não olha e lembro que eu ficava torcendo sempre em silêncio meio assim escondido meio assim com vergonha mas sempre torcia pra que um dia quando eu chegasse em casa já de noite eu encontrasse minha mãe completamente mudada e diferente e eu pudesse olhar pra cima, pra eu poder ter uma alegria, pra eu poder olhar pra alguma coisa que crescesse e ficasse melhor e não ficasse do lado de fora da casa.

tampa

ontem eu fui colocar a tampa da panela na panela e, sem querer, peguei a tampa do lixo. não é porque é tampa que encaixa em todo lugar que precisa de tampa, pensei. igual gente.

chá de boldo pra perdoar deus

depois de uma semana boa demais pra ser verdade pra minha cabeça e pras minhas dores e pras coisas que eu sei que vivem em mim, gastrite. fazia tempo. que as coisas não ficavam bem. que a gastrite não me abraçava tão forte. tomei chá de boldo. foi quase como o conto. perdoar deus. parar de inventá-lo. deixá-lo existir. perdoar a vida. parar de inventá-la, jamais. deixá-la existir, sempre. não por vontade. por necessidade. preciso dela pra novas invenções. pra mais chá de boldo. ele sempre volta. nunca inventei.

por querer sem precisar

quando você não é rico, toda oportunidade de compra é uma conquista inenarrável. até pra comer hambúrguer. eu lembro que, dado momento da minha infância, tive uma vontade daquelas sobrenaturais de comer um hambúrguer do mcdonald’s. aquele que não, não é gostoso, mas carrega consigo algum status social. o sabor fica por conta do sorriso por trás do mclanche feliz, parece. eu é que não queria ficar sem. tive muita, muita vontade. e nenhum dinheiro pra comprar. a essa altura do campeonato, meus pais já viviam os dias cinzas em sua plenitude e eu podia, no máximo, numa boa semana, contar com um hambúrguer industrializado, comprado por unidade na geladeira de congelados do mercado, que seria colocado num pão francês dormido. pronto. fecha, joga um pouco de molho de tomate que já tava rendendo com água e come. hoje em dia, eu posso comer hambúrgueres. artesanais, temperados, com molhos, sabores, maioneses, acompanhamentos. peço com fritas, com onion rings, peço mais do que preciso comer, peço mais vezes do que seria saudável. e não consigo deixar pra lá: veja, se deu vontade, como vou abrir mão? sabendo que passei tanto tempo querendo sem poder ter? jamais. se quero, como. não passo fome, não passo vontade.
mas toda vez que abro o aplicativo e peço um hambúrguer desses que custam mais do que uma refeição deveria custar, eu respiro fundo e agradeço internamente à giovanna do passado que, veja só você, trabalhou tanto, se engasgou de tanto engolir tanto sapo, escutou tanto “não”, fez tanta coisa que me trouxe, eu, a giovanna do presente, até aqui, e agora eu posso pedir hambúrguer quando quero. eu conquisto um monte de coisa idiota com o maior sorriso do mundo na cara. eu conquisto hambúrguer e pizza e cerveja gostosa e hoje eu posso comprar um óculos novo sem planejamento e sem precisar deixar a dispensa vazia por isso. eu posso trocar de óculos porque quero e não porque preciso e é mágico poder enxergar a diferença clara entre quem faz por querer e quem faz por precisar. pobre só faz o que precisa. inclusive trabalhar. “ninguém trabalha porque quer, trabalha porque precisa” é ladainha marcada na vida de todo pobre.
a gente aprende que trabalhar é um fado do qual não dá pra fugir e passa a vida inteira fugindo de onde o trabalho pode levar a gente.
se com o seu trabalho dá pra ir viajar pro sul do país pra curtir uma praia, você foge disso e deixa o dinheiro guardado porque vai que. se com o seu trabalho você pode ir pra uma pousada bonitinha no final de semana, você foge disso também e guarda mais dinheiro porque vai que. a gente aprende que trabalho é necessário, que tem que economizar, que não pode extravasar, que felicidade de pobre dura pouco.
dura nada. pode durar um monte. você só precisa lembrar dos hambúrgueres que você não podia comer – e hoje pode.
e a partir daí, ir conquistando seu espaço, sua voz, seu hambúrguer de hoje. seja ele um pão com carne de segunda, seja ele um hambúrguer vegano artesanal com molho chimichurri. que você possa conquistar porque quer. que seja possível abstrair um pouquinho do preço das coisas. que a sua vida não seja sempre baseada no quanto custa. que um dia você possa olhar pro mcdonald’s e pensar: eu posso, mas eu não quero. porque melhor do que poder comprar porque quer é deixar de comprar pela mesma razão. talvez abrir mão por escolha própria seja a maior conquista possível pra quem passou a vida inteira correndo atrás de tentar poder. mal sabia eu: o poder já era meu. sempre foi.